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Postado dia 29/09/2026 às 17:56:45
Por que a gente se sente sozinho mesmo estando num relacionamento?
Tem gente que divide apartamento, financiamento e a mesma cama há anos, mas, na hora de desabafar sobre um dia ruim, sente que está sozinha.
Pode não ser falta de amor nem sinal de que a relação está no fim. Para a psicanalista Ana Suy, autora do best-seller "A Gente Mira no Amor e Acerta na Solidão" (Paidós), sentir-se só a dois pode fazer parte de qualquer vínculo, mas também pode revelar um problema mais específico: a dificuldade de um casal de se escutar e contar um com o outro, mesmo em um relacionamento.
É o que Ana chama de estar "sozinhos juntos". "Você não tem como fazer parceria com alguém que não está disponível e você não tem como fazer parceria se você não está disponível", resume.
O individualismo contemporâneo pode aprofundar essa distância: "Nós somos levados a acreditar que a gente tem que dar conta das coisas sozinho, que pedir ajuda é fracasso". Mas pedir ajuda é justamente uma forma de construir parceria.
Da idealização ao ressentimento
Esperar que o parceiro nos "complete" é a melhor receita para a decepção constante e a sensação de solidão, afirma a psicanalista.
"Se a gente acha que o outro deveria ser igual a gente, se acha que o outro deveria nos livrar da gente, de fato, não tem como isso não cair em ressentimento", explica.
Nesse cenário, ou a pessoa vai trocando de parceiro em busca de um encaixe que não existe ou fica na relação transformando o outro em bode expiatório de tudo que dá errado na própria vida
.
Para Ana, a solidão dentro do relacionamento não se resolve. Se elabora. "A gente fica sozinho quando fica preso na fantasia", diz.
Ela cita a escritora Clarice Lispector: "Amar é não ter, o amor é não ter." E completa, sobre o que sobra quando a gente perde a ilusão de completude: "O amor, inclusive, é a desilusão daquilo que se pensava que era amor."
O espelho que nunca é suficiente
A busca por se sentir completo a partir do amor do outro tem uma explicação mais profunda. Desde bebês, construímos a ideia de quem somos pelo olhar de quem está por perto. Só que esse espelho nunca é suficiente, e ao longo da vida seguimos em busca de novas referências para sustentar quem achamos que somos.
Daí vem a expectativa, quase automática, de que o parceiro dê aquilo que, estruturalmente, ninguém tem como dar por completo.
Tem quem se pergunte se escolhe sempre o parceiro errado. Ana diferencia duas coisas: o amor é, por definição, um enigma. "A gente não sabe muito bem por que a gente escolhe certas pessoas." Já ficar preso em histórias que sabidamente vão dar errado, é outra história: aí sim é repetição, um padrão neurótico que a análise ajuda a desfazer.
Um ponto que ela insiste é que a gente quer e, ao mesmo tempo, teme que o outro seja igual a nós. Se fosse, seria "um filme de terror", diz Ana.
O que torna um vínculo interessante é justamente a diferença: "O outro nos interessa porque ele é um espelho nosso. E também porque ele fura esse espelho.




