A crise de elegibilidade de Deltan Dallagnol (Novo) está redesenhando de forma decisiva a disputa pelas duas vagas ao Senado Federal pelo Paraná. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) manteve, por maioria, a suspensão da campanha do ex-procurador, proibindo atos de campanha, participação em debates e veiculação de propaganda em rádio e televisão, além de cortar o acesso a recursos públicos de campanha. A decisão atende a um entendimento de que Dallagnol fraudou a Lei da Ficha Limpa ao pedir exoneração do cargo de procurador para escapar de punições disciplinares. Na prática, o candidato ficou numa situação inusitada: tem registro deferido pelo TRE paranaense, mas está impedido de fazer campanha. Esse cenário abre espaço real para que outros nomes cresçam, especialmente Alexandre Curi (Republicanos) e Gleisi Hoffmann (PT).
A força de Alexandre Curi está diretamente ligada à máquina política do governador Ratinho Júnior (PSD) e à candidatura de Sandro Alex ao Palácio Iguaçu. Curi, ex-presidente da Assembleia Legislativa do Paraná e nome de uma tradicional família política do estado, era um dos três nomes cotados para a sucessão estadual dentro do grupo de Ratinho. Com a escolha de Sandro Alex para a disputa majoritária, Curi passou a representar o campo governista na corrida ao Senado. As pesquisas já mostram sua trajetória ascendente: no levantamento da Real Time Big Data de setembro, ele aparece com 22% na primeira escolha, atrás apenas de Dallagnol (25%), e com 18% na soma das duas escolhas, empatado com Filipe Barros (PL). Como Sandro Alex vem crescendo na disputa estadual — de 23% em agosto para 27% em setembro — e Ratinho Júnior mantém altos índices de aprovação, a tendência é que essa estrutura impulsione também a candidatura de Curi ao Senado.
Gleisi Hoffmann, por sua vez, aposta na força estrutural do PT no Paraná, que gira historicamente em torno de 30% do eleitorado. Ainda que esse percentual não baste para vencer o governo estadual, ele é suficiente para alavancar um nome da esquerda em uma eleição ao Senado com duas vagas e muitos concorrentes. Em 2018, a candidata petista Mirian Gonçalves teve apenas 5,92%, mas aquele foi um ano de forte rejeição nacional ao partido e de concentração de votos na direita. Agora, com o PT de volta ao governo federal e Gleisi, que até recentemente exercia a presidência nacional da legenda, o cenário é outro. Na pesquisa da Real Time Big Data, ela aparece com 21% na primeira escolha e 16% na soma das duas, já em posição de competitividade pela vaga. Se os votos de Dallagnol se dispersarem entre Curi, Filipe Barros e Cristina Graeml (PSD), a base mais concentrada de Gleisi pode levá-la à vitória.
Vale lembrar o precedente de 2018, quando também havia duas vagas em disputa e o resultado surpreendeu. Naquela eleição, Oriovisto Guimarães (Podemos) foi eleito com 29,17% (2.957.239 votos) e Flávio Arns (Rede) com 23,00% (2.331.740 votos), enquanto os ex-governadores Roberto Requião (MDB), com 15,08% (1.528.291 votos), e Beto Richa (PSDB), com apenas 3,73% (377.872 votos), ficaram de fora. Alex Canziani (PTB) obteve 12,87% (1.304.719 votos) e Mirian Gonçalves (PT) 5,92% (599.953 votos). A lição desse pleito é clara: em eleições senatoriais com dois assentos, a fragmentação do eleitorado permite que candidatos com menos de 30% dos votos válidos garantam uma cadeira, enquanto nomes de maior rejeição, mesmo com larga trajetória política, acabam excluídos.
Diante desse quadro, a crise de Deltan Dallagnol cria um ambiente assimétrico: a direita precisa redistribuir os votos do ex-procurador entre Curi e Filipe Barros, o que inevitavelmente gera perdas e competição interna; a esquerda, por outro lado, conta com um eleitorado relativamente coeso em torno de Gleisi. Curi se beneficia do avanço de Sandro Alex e da máquina estadual; Gleisi se beneficia da concentração da base petista e da lógica matemática das duas vagas. Como mostrou 2018, menos de 30% dos votos pode ser suficiente para se eleger senador no Paraná — e é exatamente nessa faixa que os dois nomes hoje se posicionam. A suspensão da campanha de Dallagnol, mais do que uma vitória de um ou outro campo, abre simultaneamente as portas do Senado para Alexandre Curi e Gleisi Hoffmann.