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Norte do Paraná
Postado dia 10/09/2026 às 23:46:00
Da fábrica de inovação: Assaí, R$ 1,2 milhão; Curitiba, R$ 296,5 milhões
O anúncio feito no primeiro semestre desse ano acerca da destinação de R$ 1,2 milhão para a "Fábrica de Inteligência Artificial" em Assaí (PR), cidade do Norte do Paraná, representa uma falácia perigosa: a de que é possível construir um polo de inovação sério com um orçamento irrisório.
Enquanto Curitiba recebe R$ 296,5 milhões para sua "Fábrica de Ideias", um complexo de 34 mil metros quadrados com retrofit sustentável, museus e espaço para empresas de tecnologia, a pequena localidade do interior do Paraná, com seus R$ 1,2 milhão, mal consegue estruturar quatro salas temáticas para cursos básicos de programação.
A diferença de 235 vezes no investimento não representa mero detalhe, mas sim a prova de que a suposta "comunidade inteligente" de Assaí é, na verdade, uma bem-sucedida operação de marketing que confunde certificações internacionais com transformação real.
O título de "uma das comunidades mais inteligentes do mundo", concedido pelo Intelligent Community Forum (ICF), tem sido usado pela administração municipal como cortina de fumaça para esconder a falta de investimento estrutural. Assaí figura no Top 7 mundial desde 2024, mas seus próprios documentos orçamentários revelam a fragilidade do projeto: a Lei Orçamentária Anual de 2026 estima receitas de apenas R$ 70,5 milhões para todo o município, com R$ 20,4 milhões para educação e R$ 13,5 milhões para a saúde.
Nesse contexto, R$ 1,2 milhão para uma "fábrica de IA" não é um projeto de futuro, mas uma migalha que mal cobre a instalação de equipamentos e a contratação de alguns instrutores. A cidade precisa, na verdade, de investimentos em infraestrutura básica de conectividade, formação continuada de professores, atração de empresas de tecnologia e integração com universidades regionais — nada disso se resolve com um cheque simbólico do governo estadual.
A comparação com Curitiba é devastadora e escancara a falácia. A capital paranaense, eleita a cidade mais inteligente do mundo em 2024, investe R$ 296,5 milhões em um complexo que abrigará startups, laboratórios de IA, museus e escritórios governamentais, aproveitando uma antiga fábrica da Ambev no bairro Rebouças. Assaí, por sua vez, com seus R$ 1,2 milhão, planeja "quatro salas temáticas" que vão da inclusão digital ao uso avançado de IA. É uma diferença de escala que torna o discurso da "cidade inteligente" local quase cômico: enquanto Curitiba constrói um ecossistema, Assaí monta um laboratório de informática com pretensões globais.
Para que a Terra do Sol Nascente tivesse uma chance real de se tornar um polo de inovação ou IA, precisaria de um investimento mínimo de dezenas de milhões de reais — algo como os R$ 296,5 milhões de Curitiba, proporcionalmente ajustados para seu porte — além de uma estratégia que priorizasse parcerias com universidades, incentivos fiscais para empresas de tecnologia e um plano de longo prazo que não dependesse de certificações internacionais para justificar sua existência.
Sem isso, o que resta é a repetição de um mantra vazio: "somos uma das cidades mais inteligentes do mundo", enquanto a população local continua sem acesso a uma formação tecnológica de qualidade e sem perspectivas reais de emprego no setor. A fábrica de inovação de Assaí é, na melhor das hipóteses, uma boa intenção; na pior, uma farsa que custa R$ 1,2 milhão aos cofres públicos.




