Norte do Paraná

Postado dia 12/05/2018 às 22:22:06

Jovem que deu à luz em coma celebra 1º Dia das Mães

A paranaense Kezia Fernanda Lemes de Mira, de 24 anos, comemora o primeiro Dia das Mães ao lado do filho Miguel, de seis meses, neste domingo (13). O bebê nasceu enquanto ela estava em coma, dias depois de um grave acidente de trânsito. Na mesma batida, a jovem perdeu os pais.

O acidente

Kezia e o marido Clodoaldo dos Santos Mira, de 30 anos, estão juntos há sete anos. Eles queriam muito um filho, mas planejavam ter um só depois de conquistar a casa própria.

Um distúrbio na tireoide, porém, ajudou a antecipar a chegada do primogênito. "Precisei ficar um ano sem tomar o anticoncepcional. Nesse período, acabei engravidando. Foi uma alegria imensa quando descobrimos", relata.

Por causa desse mesmo distúrbio na tireoide, Kezia enfrentou uma gravidez de risco. Todo mês, ela viajava de Arapoti, onde sempre morou, para Ponta Grossa, onde recebia o acompanhamento médico que precisava no Hospital Universitário dos Campos Gerais.

 
Todos os meses, Kezia viajava de Arapoti para Ponta Grossa, onde recebia o acompanhamento médico que precisava (Foto: Kezia Fernanda Lemes de Mira/Arquivo pessoal)

Todos os meses, Kezia viajava de Arapoti para Ponta Grossa, onde recebia o acompanhamento médico que precisava (Foto: Kezia Fernanda Lemes de Mira/Arquivo pessoal)

No sétimo mês da gestação, porém, ela não conseguiu chegar à consulta marcada para o dia 25 de outubro. O carro em que estava foi atingido por um caminhão na PR-151, no trevo que dá acesso à Avenida Monteiro Lobato, em Ponta Grossa.

Kezia não se lembra do momento da batida e nem de como foram os dias que vieram em seguida. As horas que antecederam a tragédia, porém, ficaram marcadas.

"Meu pai tinha um problema de saúde e fazia tratamento no mesmo hospital que eu em Ponta Grossa. Ele tinha um exame no dia da minha consulta e sugeri que ele não fosse de ônibus, como ele sempre ia. Falei para ele e para a minha mãe irem comigo, de carro", relata.

 
Kezia perdeu o pai e a mãe em acidente de carro em Ponta Grossa, em outubro de 2017 (Foto: Kezia Fernanda Lemes de Mira/Arquivo pessoal)

Kezia perdeu o pai e a mãe em acidente de carro em Ponta Grossa, em outubro de 2017 (Foto: Kezia Fernanda Lemes de Mira/Arquivo pessoal)

Geralmente, quem levava Kezia ao município vizinho era o marido dela. Naquele dia, entretanto, ele não poderia sair do trabalho. Um amigo do casal, então, foi quem dirigiu.

"Levantei às 2h, fiz café, arrumei tudo para ir. Perto das 4h, nosso amigo passou nos buscar e fomos conversando. Logo depois do pedágio de Carambeí, lembro que falei para ele mudar para a pista da esquerda porque a entrada já estava próxima. Depois, já não sei mais o que aconteceu", conta.

O caminhão bateu no lado do carro em que os pais de Kezia - Cícero Guimarães de Lemes e Ilete de Andrade Lemes, de 52 anos - estavam. O casal, junto havia mais de 30 anos, morreu na hora. A jovem e o amigo da família foram levados ao hospital em estado grave.

 
Carro em que Kezia estava foi atingido por um caminhão na PR-151, em Ponta Grossa, no dia 25 de outubro de 2017 (Foto: Kezia Fernanda Lemes de Mira/Arquivo pessoal)

Carro em que Kezia estava foi atingido por um caminhão na PR-151, em Ponta Grossa, no dia 25 de outubro de 2017 (Foto: Kezia Fernanda Lemes de Mira/Arquivo pessoal)

 A cesárea de emergência

Kezia chegou ao hospital com traumatismo craniano, com risco de morte. O obstetra Severino Orsatto Junior, que acompanhou dela desde o começo, conta que a paciente foi levada para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) assim que chegou. 

"Como não teve uma situação de exigência ao nascimento imediato, havia a necessidade da manutenção da gestação para preparar o bebê para as melhores condições possíveis", relata.

Foi, então, que a equipe médica conseguiu estabilizar a gestante, através do coma induzido. Foram três dias na UTI até que as complicações que exigiam o nascimento de Miguel começassem. Kezia estava na 32ª semana de gestação.

"Ela foi levada para o centro cirúrgico e a equipe de plantão foi mobilizada. Era início da noite e eu vim para o procedimento. Como estava internada havia três dias, poderia ser a qualquer momento. Aí, interrompemos [a gravidez] imediatamente", lembra. O parto foi rápido.

Miguel, ao nascer, teve em uma parada cardiorrespiratória, mas foi reanimado e levado para a UTI Neonatal, onde conseguiu se recuperar bem nas semanas seguintes.

"É um caso que você sempre fica com a expectativa de fazer o seu melhor. Com a expectativa de que mãe e bebê fiquem bem. Quando acontece isso, é uma satisfação muito grande. É uma gratificação muito grande", acredita o médico.

Para o obstetra, o caso de Kezia é inspirador para a carreira de qualquer profissional da saúde.

 

"São casos que fazem com que a gente sempre tenha interesse em investir tudo o que for possível para que o resultado seja sempre o melhor", acredita.

 

 
'São casos que fazem com que a gente sempre tenha interesse em investir tudo o que for possível para que o resultado seja sempre o melhor', diz o obstetra Severino Orsatto Junior (Foto: Reprodução/RPC)

'São casos que fazem com que a gente sempre tenha interesse em investir tudo o que for possível para que o resultado seja sempre o melhor', diz o obstetra Severino Orsatto Junior (Foto: Reprodução/RPC) 

O reencontro

Depois do parto, a paranaense foi melhorando e saiu do coma em 6 de novembro. Foi, então, que a enfermeira obstetra Regiane Hoeldtke, que também acompanhou toda internação de Kezia, decidiu que era a hora de mãe e filho se rencontrarem.

"Perguntei se ela gostaria de ver o Miguel. Ela não me respondeu, só gesticulou com a cabeça que 'sim", lembra.

 

Regiane conta que a melhora da mãe depois de ficar com o filho foi surpreendente.

 
'Perguntei se ela gostaria de ver o Miguel. Ela não me respondeu, só gesticulou com a cabeça que 'sim'', lembra a enfermeira Regiane Hoeldtke (Foto: Reprodução/RPC)

'Perguntei se ela gostaria de ver o Miguel. Ela não me respondeu, só gesticulou com a cabeça que 'sim'', lembra a enfermeira Regiane Hoeldtke (Foto: Reprodução/RPC)

Kezia, apesar de ainda estar um pouco sob efeito dos remédios, revela que o primeiro contato com Miguel foi de muita emoção.

 

"Lembro do meu marido me empurrando, de cadeira de rodas, até o berçário. A enfermeira colocou o Miguel no meu colo e os meus braços amoleceram. Sentir o cheirinho da cabecinha dele foi bom demais", lembra.

 

 
Kezia, apesar de ainda estar um pouco sob efeito dos remédios, revela que o primeiro contato com Miguel foi de muita emoção (Foto: Reprodução/RPC)

Kezia, apesar de ainda estar um pouco sob efeito dos remédios, revela que o primeiro contato com Miguel foi de muita emoção (Foto: Reprodução/RPC)

 

O depois

 

Quando deixou o hospital de vez, no dia 12 de novembro, a jovem soube da morte dos pais pelo irmão. Ela relata que, na hora, não acreditou.

"A ficha foi caindo aos poucos. Tenho muita saudade. Eles estavam tão contentes com a chegada do primeiro neto. Mas, de qualquer forma, tenho certeza que eles estão felizes em ver a nossa família bem", revela.

Miguel foi para casa no dia 1º de dezembro. Ele precisou ficar um tempo a mais no hospital para ganhar peso e ficar totalmente recuperado. Desde que o bebê chegou, Kezia conta que a vida da família tem sido completa.

 

"Esses seis meses têm sido maravilhosos. Difíceis, mas maravilhosos. O que eu tiro de tudo isso é que a gente deve aproveitar todo o tempo que temos com quem a gente ama", acredita.

 

Clodoaldo, que mal consegue falar de tudo o que aconteceu sem ficar emocionado, concorda com a esposa e diz agradecer, todos os dias, pela vida da esposa e do filho.

 

"Sou apaixonado por esses dois. São meus guerreiros, meus milagres", afirma.

 

 
'Sou apaixonado por esses dois. São meus guerreiros, meus milagres', diz Clodoaldo, marido de Kezia e pai de Miguel (Foto: Kezia Fernanda Lemes de Mira/Arquivo pessoal)

'Sou apaixonado por esses dois. São meus guerreiros, meus milagres', diz Clodoaldo, marido de Kezia e pai de Miguel (Foto: Kezia Fernanda Lemes de Mira/Arquivo pessoal)


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