Política

Postado dia 01/08/2026 às 19:48:13

Por que Ratinho Jr sofre para cacifar herdeiro político

O governador do Paraná, Ratinho Junior (PSD), chegou a flertar com voos mais altos. Foi considerado uma alternativa real de candidato à Presidência e, nessa condição, circulou pelo Brasil como estrela em ascensão. Quando Tarcísio de Freitas (Republicanos) teve a candidatura presidencial inviabilizada pelo bolsonarismo, o paranaense despontou como o nome da oposição com mais chances de enfrentar o presidente Lula, um centrista de escol capaz de angariar a simpatia do empresariado, do agronegócio e do mercado financeiro e conquistar apoios partidários, algo que Flávio Bolsonaro 

(PL-RJ) ainda não conseguiu. A seu favor tinha a boa gestão, que lhe garantia uma aprovação em torno de 80% dos eleitores. O tempo, no entanto, mudou a perspectiva. Ratinho Junior perdeu espaço na corrida presidencial, desistiu, abriu mão de tentar o Senado (para o qual era favorito) e resolveu ficar até o fim do governo e eleger o sucessor. O objetivo, porém, está longe de ser conquistado.

Na largada, o processo de escolha do seu herdeiro político foi conturbado. Ele ficou indeciso por muito tempo entre vários nomes do seu entorno, chegou a ter três pré-candidatos e, no fim, não escolheu nenhum deles para optar pelo ex-secretário de Infraestrutura Sandro Alex (PSD), que teve o nome sacramentado em convenção no sábado 25. Desconhecido pela ampla maioria do eleitorado (68% não sabem quem ele é, segundo pesquisa Genial/Quaest), Alex patina com 7% a 8% das intenções de voto, bem longe dos candidatos que devem ir ao segundo turno.

Reverter o desconhecimento será um passo crucial, mas mais difícil ainda será superar a força dos adversários. O principal deles é o ex-juiz Sergio Moro (PL), que lidera com boa vantagem a corrida ao ao Palácio Iguaçu alavancado pela força do bolsonarismo, do lavajatismo e do antipetismo no Paraná. Ex-ministro da Justiça de Jair Bolsonaro, cargo que deixou atirando contra o governo, Moro fez um movimento de reconciliação com o bolsonarismo ao migrar do União Brasil para o PL e fechar apoio a Flávio. De lá para cá, tenta nacionalizar a eleição do Paraná, exaltando a reaproximação com o clã Bolsonaro e o adversário em comum.

Ratinho Junior, ao menos pelo que apontam as sondagens, terá imensa dificuldade para levar seu candidato ao segundo turno. Para isso, terá de superar o deputado estadual Requião Filho (PDT), que tem um duplo trunfo. Primeiro, é filho de Roberto Requião, que foi governador do estado por três mandatos, prefeito da capital e senador. Segundo, foi abraçado por Lula, que viu nele a chance de ter um palanque minimamente competitivo no estado.

A principal estratégia do grupo de Ratinho Junior será usar a boa imagem do governador — 63% do eleitorado diz que ele merece fazer um sucessor. Também será posta em marcha a poderosa máquina do governo, que o PSD controla há oito anos e é vital para atrair outros partidos. De cara, a candidatura já sai com alianças com as federações União-PP e PSDB-Cidadania, caminho para maior tempo de rádio e TV. A máquina também ajuda a atrair prefeitos pelo interior do estado. “As pessoas não sabem ainda que ele é o nosso candidato. À medida que vão sabendo, e é o que temos nas nossas pesquisas, isso vai se revertendo em intenção de voto”, diz Ratinho Junior, que promete entrar fortemente na campanha para mostrar o quanto Alex foi relevante em sua gestão. “Ele nos ajudou na parte estratégica, de planejamento, dos projetos das grandes obras. As obras dele são mais conhecidas do que ele.”

Uma questão seminal do xadrez é a eleição nacional. Ratinho Junior não apoia nem Lula nem Flávio, mas Ronaldo Caiado, que é do mesmo PSD, pontua abaixo de dois dígitos na corrida presidencial (veja a reportagem na pág. 36). E o avanço de Alex se daria no campo independente. “A maioria do eleitorado quer que o próximo governador tenha um perfil de independência e demonstra pouca disposição para transformar a eleição estadual em uma extensão automática da polarização nacional”, afirma Murilo Medeiros, cientista político da UnB.

A mesma pesquisa que mostra a complexa situação de Ratinho Junior mostra, porém, que muita água há ainda de rolar. Exatos 64% dos eleitores admitem mudar o voto. É terreno fértil para uma investida de última hora. O tempo curto para a eleição, contudo, dá um certo ar de drama ao desafio do governador, que sonhava com voos altos e perdeu espaço. Manter-se influente em seu ninho parece soar como prêmio de consolação.


comente esta matéria »

Copyright © 2010 - 2026 - Revelia Eventos - Cornélio Procópio - PR Desenvolvimento AbusarWeb.com.br