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Postado dia 26/10/2020 às 19:28:04

Fake News influenciam o processo eleitoral? Como não ser enganado por elas?

Nos últimos anos, as eleições se tornaram mais polarizadas e fenômenos, como as Fake News, trouxeram mais desinformação no período eleitoral. Instituições têm buscado trazer mais transparência e informação aos eleitores. Algumas dessas iniciativas já têm resultados positivos, mas as ferramentas de combate ainda são limitadas.

Um dos exemplos é da Justiça Eleitoral que, no Paraná, criou a Central de Combate à Desinformação Gralha Confere. A central disponibiliza um canal pelo WhatsApp para a população enviar dúvidas sobre conteúdos suspeitos que circulam nas redes sociais e serviços de mensageria: (41) 98700-5100. “Além disso, também é feito o monitoramento pelas redes sociais das ‘Fake News’ que estão ganhando fôlego no estado. As checagens produzidas são publicadas no site www.gralhaconfere.tre-pr.jus.br, nas redes sociais do TRE-PR, das 47 instituições parceiras do projeto e em listas de distribuição com porta-vozes, imprensa, servidores e autoridades”, explica a chefe da Seção de Produção Jornalística do Tribunal Regional Eleitoral do Paraná (TRE-PR), Melissa Diniz Medroni.

Contudo, há limitações no projeto. “O projeto dedica-se exclusivamente a informações sobre o processo eleitoral, a segurança do voto e a legitimidade da Justiça Eleitoral. Não são verificadas informações sobre candidatos e partidos, pois estas cabem ao trabalho jurisdicional feito em primeiro grau pelos juízes eleitorais e em segundo grau pela Corte do TRE-PR”, conta Melissa.

Mesmo com atuação reduzida, foi possível obter alguns resultados. “Já foram desmentidos ou confirmados 17 conteúdos e recebidas dezenas de denúncias”, relata. Segundo ela, o resultado das checagens é repassado a emissoras de rádios, à comunidade acadêmica da Universidade Federal do Paraná e aos agentes de segurança da Polícia Militar.

Melissa fala que ainda não foi observado algo que realmente tenha prejudicado o processo eleitoral. “Com este esforço coletivo das instituições do Paraná, somado ao apoio dos demais parceiros e da imprensa, ainda não foi registrado nenhum caso de desinformação que tenha causado problemas sérios ao processo eleitoral em 2020”, disse.

Entendendo as Fake News

Apesar dos esforços, ainda é difícil combater o fenômeno das Fake News, até mesmo porque os mecanismos de disseminação ainda estão sendo estudados.

Uma das pesquisas sobre essa disseminação é realizada na Universidade Positivo (UP), no curso de Mestrado em Direito, onde um projeto de pesquisa busca entender como notícias falsas podem afetar a dinâmica democrática no país. “A análise é realizada com o uso do CrowdTangle, um aplicativo do próprio Facebook que permite monitorar os diversos tipos de interações em uma postagem nas redes”, explica o professor Dr. Eduardo Faria Silva.

O estudo iniciou há poucos meses, portanto, ainda não tem resultados conclusivos. Mas a proposta é auxiliar e entender se há algum prejuízo ao processo democrático. “Vamos analisar as indicações de canais feitas na CPMI [Comissão Parlamentar Mista de Inquérito] das Fake News. Interessa, sobretudo, entender as características típicas das notícias falsas e se há, entre elas, as que afrontam o próprio regime democrático”, conta.

Crime eleitoral

É exatamente por prejudicar o processo eleitoral que as Fake News são consideradas crime. “Os atos relacionados à criação, à divulgação e à disseminação de informações falsas podem ser enquadrados em pelo menos oito artigos do Código Penal e um do Código Eleitoral, com penas que vão desde a aplicação de multas até a prisão e a perda de direitos políticos”, comenta Eduardo.

Segundo o professor Luiz Renato Ribeiro Ferreira, sociólogo e mestre em Ciência Política pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), as Fake News podem ser prejudiciais neste processo de uma forma lenta e, até mesmo, ultrapassar a barreira da competição eleitoral, chegando a ser danoso à vida. “Fake News ou desinformação, como eu prefiro chamar, mata! E mata em duas frentes: mata as pessoas e mata a democracia. Recentemente, uma Fake News sobre o coronavírus no Irã dizia que o metanol matava o vírus. Com ares de cientificidade, a desinformação convenceu muita gente e o resultado foi cerca de mil pessoas mortas após beberem o metanol. Da mesma forma, a desinformação mata a democracia, pois além de destruir reputações, ela vai corroendo lentamente as instituições, como a imprensa, por exemplo, a base de uma sociedade com um mínimo de equilíbrio”, explica.

Conscientização

A conscientização da população sobre os danos das Fake News é um dos recursos para que as pessoas combatam esse processo. No entanto, para especialistas a conscientização não pode ser o único caminho.

Para o criador e editor do site de checagem Boatos.org, Edgard Matsuki, a educação é uma ferramenta poderosa. “Creio que esse movimento vai além das próprias iniciativas de checagem. Campanhas educativas (como a do próprio TSE) nos meios de comunicação e, principalmente, iniciativas que ajudem a desenvolver o espírito crítico já na escola nos ajudaria a minimizar em longo prazo a desinformação na web”, explica.

O professor Luiz Renato ainda destaca que as empresas também têm papel relevante neste momento. “A conscientização costuma ser um processo permanente, longo e lento. Isso significa dizer que, até que a maioria dos eleitores finalmente se convença sobre os males da desinformação, essa forma suja de fazer política já terá causado muitos danos, alguns deles irreparáveis. Portanto, a conscientização deve vir das empresas líderes da Internet, da imprensa e dos cidadãos”, conta.

Promessas falsas

Além das notícias falsas, outro problema ocorrido no processo eleitoral é a desinformação sobre as funções dos cargos de vereador e prefeito. Sem saber sobre os limites das funções, muitas pessoas acabam acreditando em promessas falsas.

O professor Luiz Renato detalha as atribuições de cada função. “No sistema democrático existe uma regra constitucional chamada ‘tripartição dos poderes’. O termo parece difícil, mas, traduzindo, significa dizer algo como, cada macaco em seu galho, ou seja, cada um dos 3 poderes, por isso se chama ‘tripartição’, faz a sua parte. Nessas eleições os vereadores, fazem a parte legislativa, serão eleitos para legislar, ou seja, fazer Leis para a cidade! Além de fazer leis, os vereadores fiscalizam a ação do prefeito. Já o prefeito faz o papel executivo, ou seja, ele executa as leis, administra a cidade e garante o funcionamento dela da forma mais organizada possível. A terceira parte dessa ‘tripartição’ é a Justiça, que não entra em disputas eleitorais”, explica.

Por isso, ele alerta que com essa informação o eleitor pode se prevenir. “Portanto, se um vereador nesta campanha prometer construir uma creche no bairro é bom desconfiar, pois ele não tem esse poder. No máximo, ele pode recomendar ao prefeito eleito, este sim, com os plenos poderes para executar a obra. Ao entenderem esse mecanismo os eleitores estarão mais preparados para combater as falsas promessas para não eleger candidatos demagogos e que tentam manipular a opinião pública e as pessoas de bem”, conta.

Para o professor Dr. Eduardo Faria Silva, saber essa informação é fundamental para a qualidade da democracia. “A qualidade de um regime democrático está intimamente relacionada com o conhecimento que a sua população tem sobre o funcionamento das instituições. Saber as atribuições do Executivo e do Legislativo é um passo fundamental para que se construa uma cidade que atenda mais aos interesses dos seus cidadãos”, explica.

De acordo com ele, esse conhecimento ajuda na cobrança das promessas. “Os moradores de um município que sabem diferenciar as responsabilidades do prefeito e dos vereadores, com certeza, conseguem exigir o cumprimento de uma determinada política com mais assertividade e com melhor resultado para os interesses da comunidade”, conta.

Como se prevenir das Fake News?

O caminho mais curto para os eleitores se prevenirem das Fake News é estar cético sobre tudo que recebe. “Creio que o caráter cético em relação aos conteúdos que circulam em redes sociais é a principal arma. É importante não repassar um conteúdo sem que você tenha lido, interpretado e, se ficou desconfiado,  faça a checagem (uma busca no Google e em sites como o Boatos.org já ajuda). É uma tarefa simples, mas que já minimizaria a quantidade de notícias falsas que circulam na internet”, explica o criador e editor do site Boatos.org, Edgard Matsuki.

Para o professor da Universidade Positivo, conferir as notícias em fontes oficiais também pode ser um modo. “Uma dica para se proteger das notícias falsas é conferir o texto recebido em fontes oficiais do governo como, por exemplo, no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE”, comenta Eduardo.

O sociólogo e mestre em Ciência Política da Unicamp explica, com um exemplo próprio, como buscar fontes oficiais pode ajudar. “É possível buscar informações indo até a origem do tema. Esses dias, eu recebi um áudio supostamente do Governador de Goiás, Ronaldo Caiado, mas como o que ele ‘dizia’ me pareceu bem absurdo, eu resolvi ir direto na conta dele no Twitter e uma das primeiras postagens era desmentindo a mensagem. Nela, o governador alertava as pessoas sobre aquele áudio falso. Cuidados básicos, bom senso e o desejo de não ser manipulado são elementos essenciais para se proteger da desinformação”, conta Luiz Renato.

Prestar atenção de compartilhar também é importante. “O eleitor pode se proteger com ações simples, como não repassar imediatamente qualquer coisa que recebe via WhatsApp, por exemplo. É importante checar as fontes e quais são essas fontes. No caso da imprensa, existem os sites de detecção de Fake News, como exemplo, o Projeto Comprova (projetocomprova.com.br)”, comenta.

Outro fator a ser observado para se prevenir das Fake News é a data da notícia, também é comum que sejam compartilhadas reportagens antigas como se fossem a última notícia do momento. 

Como saber mais sobre candidatos?

A Justiça Eleitoral disponibiliza uma ferramenta chamada DivulgaCand (http://divulgacandcontas.tse.jus.br). Nesse sistema, qualquer pessoa pode acessar informações completas sobre todos os candidatos a prefeito, vice-prefeito e vereador, tais como a proposta de governo, o patrimônio declarado à Justiça Eleitoral, as contas prestadas e informações sobre doadores de campanha, entre outras.

Além disso, a Justiça Eleitoral recomenda que os eleitores, para manterem-se informados, acompanhem os conteúdos divulgados nos canais oficiais, como o site do TRE-PR e do TSE, e nos perfis destas instituições nas redes sociais.


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