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Postado dia 15/04/2018 às 01:21:54

Para perder peso é preciso também treinar o seu cérebro

Quando converso com pessoas que estão acima do peso, noto que algumas delas tendem a fazer uma “terceirização de culpa” e ter uma série de justificativas para não conseguir emagrecer.

— Não faço academia porque é caro, diz a pessoa.
— Ué, mas você pode fazer exercícios de graça no parque, em casa…, respondo.
— Ah, mas para emagrecer mesmo precisa fazer dieta. E isso, sim, é caro demais, afirma a pessoa.
— Remédio para combater a série de problemas trazidos pela obesidade também é!, finalizo.

Esses são só alguns exemplos de diálogos, pois o leque de desculpas para não treinar é grande. Afinal, terceirizar a culpa por não treinar ou fazer dieta é bem mais fácil do que, de fato, visualizar que está tomando atitudes equivocadas.

As pessoas são imediatistas. Não querem esperar por um resultado e acabam indo pelo caminho mais fácil. Quantas vezes já ouvimos a história da “Chapeuzinho Vermelho”? Engraçado que a maioria das pessoas já ouviram e leram essa história inúmeras vezes e não perceberam o quão custoso foi escolher o caminho mais curto e quantas consequências ela teve por conta das suas escolhas.

Ir pelo caminho mais fácil e curto hoje em dia, principalmente por termos uma gama de dietas mágicas para efeitos de emagrecimento rápido, como as pílulas não recomendáveis, dietas drásticas e cabulosas, pode resultar no padrão clássico do efeito ioiô ou sanfona, em que a pessoa perde peso facilmente e tem um rebote absurdo.

Como tudo na vida, damos mais valor ao que é mais difícil de conseguir e tem o resultado almejado aos poucos. E seguir o caminho mais longo ainda vai preparar o seu corpo fisiologicamente e metabolicamente para essas alterações.

Pensando nisto, pesquisadores da Universidade de Stanford (EUA) mostraram um caminho para ajudar no emagrecimento duradouro e efetivo. É necessário paciência, foco e pensar com razão, ou seja, ter consciência do que está comendo.

O estudo incluiu 267 mulheres obesas que foram aleatoriamente divididas em dois grupos. Metade começou um regime de perda de peso nos primeiros dias de pesquisa. A outra passou antes por um programa de oito semanas para aperfeiçoarem de seu estilo de vida e aprenderem a estabilizar o peso. Só depois fizeram dieta.

Ambos os grupos, em última análise, emagreceram em média 17 kg (ou 9% do peso corporal inicial). Porém, ao longo do ano seguinte, as mulheres que participaram do programa de oito semanas recuperam cerca de 3 kg, já as que fizeram apenas dieta ganharam 7 kg. 

O que elas aprenderam no estudo?

A parte de dieta do estudo durou 20 semanas e contou com todas as características de convencionais programas de emagrecimento. As mulheres se reuniam semanalmente com um instrutor, liam revistas sobre alimentação e seguiam uma dieta saudável focada em frutas e legumes.

As mulheres aprenderam a controlar o peso, controlar o tamanho das porções, saborear as refeições e identificar os substitutos saudáveis para seus pratos favoritos com alto teor calórico.

Para não haver uma desistência, os pesquisadores fizeram um “período de férias” da dieta. Ou seja, as mulheres tiveram cinco dias para comer alimentos com alto teor calórico. De acordo com o pesquisador do estudo, este processo as encorajaria a continuar no regime, havendo um senso de domínio, sem a pressão de manter uma perda de peso.

Assim, aos poucos, foi criado um momento de aprendizado e treinamento mental.

Você tem de ter controle sempre

No Centro de Estudos em Psicobiologia e Exercício da Unifesp, tive a honra de trabalhar com um grupo de adolescente obesos por alguns anos. Os jovens tinham um ano para emagrecer e precisavam seguir o protocolo à risca. Isso significava realizar os exercícios no instituto três vezes por semana, participar dos grupos de conversas, passar pelo médico, psicólogo, fisioterapeuta, nutricionista e educador físico. Enfim, fazíamos parte de uma equipe multi e interdisciplinar com enfoque em todos os processos que faziam aquele obeso estar ali. E o resultado da maioria não foi para menos: perda de peso duradoura, efetiva e reeducação mental.

Vale lembrar que a obesidade é uma doença crônica, que não tem cura, porém tem controle. O obeso pode emagrecer, mas a obesidade sempre estará ali esperando qualquer desestabilização emocional para recuperar aqueles quilos perdidos.

Como exemplo, pessoas que fazem cirurgias bariátricas têm um sério problema de não conseguir controlar a mente. Isso porque o estômago reduz, porém a cabeça continua com vontade de comer. Já ouvi casos de obesos que passaram por essa cirurgia e não tiveram acompanhamento psicológico, pegarem todos os alimentos (arroz, feijão, carne, batata) e baterem no liquidificador para suprir aquela “fome mental” que estavam sentindo. Assim, havia uma absorção imediata do alimento e ele via que realmente estava comendo tudo aquilo. Enfim, de nada adiantava e o peso voltava.

Muitos casos podem ser enquadrados aqui, porém o que vale lembrar é que não é só necessário perder o peso, é necessário um treinamento mental, com terapias cognitivo-comportamentais, para que o emagrecimento seja eficaz e duradoura.

Além disso, a prática de atividades físicas conciliada a essas terapias multidisciplinares é totalmente benéfica para melhora de comportamento, patologias e estima.

Você é capaz de exercer seu autocontrole!!!

REFERÊNCIA:

– Kiernan, M.; et al. Promoting healthy weight with “stability skills first”: a randomized trial. J Consult Clin Psychol. 2013 Apr;81(2):336-46. doi: 10.1037/a0030544. Epub 2012 Oct 29.


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